9 e vão

Quando você menos merece e me assusta com sua confusão, quando meteoritos caem sobre nossos corpos. Nesse entra e sai de gente e, em vão, você me pede para esquecer. Quando você diz que sou sol e você lua, um entardece e o outro continua. Suas palavras imperdoáveis, mas não há nada a fazer. Digo que amo assim, você no sim, sem tempo para pensar em nãos.

Pedras ancestrais de Minas, chuva de granito na primeira estrada, água quente nas reservas, chope gelado no pinguim, Cristo Redentor, passeio pela Urca. Cabelos crescendo, beijo pelas beiradas, café da manhã e violão, terra e seus errantes navegantes, Pessoa na pessoa e rosa no Rosa, atalhos, botões. Eu presa às vitrines, valsando lirismo. Você Clarice e eu Borges. Você jazz e eu bossa. Você para fora e eu para dentro.

Sem contar a forma, a norma, a sua língua domada, exata e seca e, e, e, e… Será que dá para entender Mallarmé? Sem sentimentalismo…  Ai, mas e o conteúdo? Sua mente cansada de tanto de mentar, eu querendo ver tudo acabar num belo dia de amor e cachorros correndo pelos portões, coco na praia e sonho. Brigadeiro na colher e, à noite, Roberta Sudbrack no Jardim Botânico. Viagem a Paris, prêt-à-porter da Chanel e você no Louvre. Romantismo há, ainda que… Sei não, como se ama por lá?

Mas se nessas e outras você precisar ir e eu ficar, feito poeta menor, que acompanha o elefante branco pela janela… Ah, não! Sou filha da revolução, tudo tem jeito para dar! Separação é coisa para quem ama como que pela segunda vez, reservas e freios… A minha é inteira primeira, certeira, sem ix, sem is, sem fim.

flores

Ilustrada

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Como ilustrar os sonhos 
Os desejos e o medo de altura?
Produzir uma imagem autorizada
Afastada das incertezas, das imprecisões
Desenhar com sangue de homem
O acaso
O translato de emoções socialmente repugnantes
Transformar em publicidade sazonal
Aquele beijo esquisito
Aquele espirro maldito
O avesso
A subversão 
A procura sacana pela imagem 
Aragem de quem sou eu

Das coisas que não foram do tempo

A presilha, as chaves, o tabuleiro de xadrez
A triste janela, os territórios devastados
Escritas que não encontrarão seu tempo no eterno.
Restou-me o cotidiano e os seus por quês,
Um livro e suas páginas marcadas
Taças azuis e a noite que não aconteceu
sem dúvida inesquecível e já esquecida.
O espelho transversal em que arde
uma ilusória felicidade. Quantas coisas,
pimenta, xícaras, talheres, violetas
Tudo à mesa
Você não veio.
E as coisas sem ênfase
Nunca saberão do amor de um momento.

sonho