Você

Você (que não sabe que eu existo)
É tão parte de mim como este rosto
De pele clara e de grises olhos
Que inutilmente busco nos espelhos
E com as mãos ávidas percorro
Não sem nenhuma forma de saudade
Sinto que as palavras válidas
Que me expressam se encontram em você
No seu corpo sempre pronto para ser inaugurado
Que assim seja. As suas andanças
Vão me dizer para sempre

Foram precisos mais 10 anos e duas teses
Foram precisos menos 10 quilos e cinco casas
Fora preciso a aquisição de uma consciência emocional
E de incontáveis visitas ao terapeuta
Três separações
Três reparações
Cinco empregos e quatro carros

E Beatriz, a etérea, no sétimo céu – ao lado de Dante

Confesso: a vida antes de Beatriz é imemorial!

De Partida VII

VII
Vida certinha. Do fingimento ao mais solitário êxtase. Daquele que mulher nenhuma conta para ninguém por medo de parecer vulgar, por medo de dizer com a boca cheia, por medo de não ser mais santa por dizer. No entanto, sentia-se mais palpável do que nunca. Seu corpo se revelava aos poucos e era de se ver as novas curvas que se formavam. O seu desejo modificava as horas rotineiras. Seu íntimo ultrapassara a íntima ordem.

De Partida VI

VI
Pois era evidente que Márgara ia fazendo parte de todas as coisas. As encomendas na recepção do prédio, as longas conversas com o operador de telemarketing, a água do arroz que transbordava no fogão. Seus filhos, Melchior, Gaspar e Baltazar, cresciam. E a mesa ia se estendendo. E as panelas eram cada vez maiores. Os olhos famintos do marido chegando do serviço. A mulher era a vida das coisas. Suas mãos pequenas ainda não tinham operado nenhum desastre.

De Partida V

V
E quais eram seus objetivos? Os filhos de Márgara eram bons. Exigiam para si momentos cada vez mais completos. A casa era enfim espaçosa, o fogão de cinco bocas dava quitutes. O calor da cozinha era grande. Mas os pingos do vapor que se faziam no teto podiam refrescar suas fomes. Santa água. Amor que penetrava em sua pele.

De Partida IV

IV
Paulo poderia chegar a qualquer momento e pegá-la solta em seu corpo. Por contemplar-se, Márgara deixou o almoço por fazer. Ela tinha esse direito. Ainda que a voz cheia de certezas ecoasse em sua velha memória constitutiva: “não se pode comprometer a rotina e os objetivos de um homem”.